Dourados incinera 20 mil canetas e remédios contrabandeados
A carga incinerada foi avaliada em cerca de R$ 15 milhões
Carga com cerca de 20 mil medicamentos irregulares começou a ser incinerada nesta sexta-feira em Dourados - A carga apreendida em Mato Grosso do Sul inclui emagrecedores, anabolizantes, hormônios e até medicamentos abortivos vendidos de forma irregular -
Uma carga de pelo menos uma tonelada de medicamentos irregulares começou a ser destruída na manhã desta sexta-feira, em Dourados, em uma operação que escancara o tamanho do mercado clandestino de remédios trazidos do Paraguai e vendidos pela internet para diferentes regiões do país. Entre os produtos levados ao forno estão cerca de 20 mil itens, incluindo canetas emagrecedoras, anabolizantes, hormônios e medicamentos abortivos.
A incineração ocorre em uma empresa especializada em coleta e tratamento de resíduos da área de saúde, às margens da rodovia BR-463, em Dourados. Segundo a Vigilância Sanitária Estadual, trata-se de uma ação inédita, tanto pelo volume quanto pelo tipo de material destruído. O valor estimado da carga ultrapassa R$ 15 milhões.
Os produtos foram apreendidos entre fevereiro e junho deste ano em Campo Grande, no âmbito da Operação Visa Protege. Todo o material havia sido interceptado no centro de distribuição e triagem por onde passam as mercadorias despachadas pelos Correios, em Mato Grosso do Sul. Depois da apreensão, a carga foi levada para Dourados em caminhão-baú, sob escolta da Polícia Rodoviária Federal.
O que vai para o fogo ajuda a dimensionar um problema que deixou de estar restrito à fronteira e passou a circular com facilidade pelos canais digitais. São medicamentos sem registro, contrabandeados ou comercializados fora das regras sanitárias, colocados à venda principalmente em plataformas online.
A destruição do material é acompanhada por representantes da Anvisa, da Secretaria Estadual de Saúde e da Abrafarma, entidade que representa redes de farmácias e drogarias. A operação concentrou, nesta etapa, apenas os produtos apreendidos em Campo Grande.
Entre os itens que mais chamam atenção estão as canetas emagrecedoras, que se tornaram alvo frequente de apreensões nos últimos meses. Mas a carga destruída vai além. Também reúne anabolizantes, hormônios e medicamentos abortivos, vendidos livremente em cidades paraguaias da fronteira e depois enviados de forma ilegal para consumidores brasileiros.
A escolha de Dourados para a incineração também carrega um peso simbólico. A cidade está a menos de 120 quilômetros do Paraguai, origem de boa parte dos produtos interceptados.
A destruição tão perto da linha internacional serve, segundo técnicos envolvidos na ação, como uma forma de chamar atenção para o risco sanitário desses medicamentos e para tentar frear a atuação de atravessadores.
Um técnico da área sanitária que acompanha o trabalho e pediu para não ser identificado afirmou que a maior parte da carga teria como destino o Nordeste. Segundo ele, é nessa região que os contrabandistas conseguem vender os produtos por preços muito mais altos do que os praticados na fronteira, chegando a valores de três a cinco vezes superiores.
Ao acompanhar o envio da carga para Dourados, o gerente de Apoio aos Municípios da Vigilância Sanitária Estadual, Matheus Pirolo, apontou que o foco do comércio ilegal mudou de endereço. “O grande problema sanitário hoje não está mais no comércio físico. O grande problema é o comércio clandestino, o que acontece atrás das telas, nas redes sociais e nos marketplaces”, afirmou.
O alerta vai na mesma linha do que diz o representante da Abrafarma, Serafim Branco. Segundo ele, um dos principais riscos está justamente nas vendas feitas em marketplaces não regulamentados, onde o consumidor não tem qualquer garantia sobre a origem do produto nem sobre as condições de armazenamento e transporte. “Você não sabe de onde esse produto veio, qual foi a acomodação dele e ele acaba chegando ao consumidor. Muitas vezes não produz o efeito esperado e pode até causar problemas à saúde”, disse.
A operação desta sexta joga luz sobre um mercado que se alimenta da promessa de acesso fácil, preço atraente e entrega rápida, mas que circula fora de qualquer controle sanitário. No caso das canetas emagrecedoras, o apelo comercial ajuda a impulsionar a procura. No caso dos demais medicamentos, o risco é ampliado pelo uso sem procedência, sem orientação segura e sem garantia mínima de qualidade.
No fim das contas, o forno aceso em Dourados não destrói apenas uma tonelada de mercadorias ilegais. Também expõe a rota de um comércio clandestino que sai da fronteira, passa pelos Correios e encontra na internet o atalho para alcançar consumidores em várias partes do país.





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