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Naviraí - MS, 14/12/2017
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Produto milenar tem em Três Lagoas o centro produtor mundial

PAPEL _ MS 40 ANOS

Foto: ANDRÉ BITAR
Produto milenar tem em Três Lagoas o centro produtor mundial
Eucaliptos de floresta de Três Lagoas; região concentra processo de produção de celulose

- Na região, 11,3 mil pessoas produzem 3,3 milhões de toneladas de celulose -

OSVALDO JÚNIOR / CAMPO GRANDE NEWS

Conta a história que um chinês de apenas 20 anos, chamado T’sai Lun, fez uma mistura com casca de amoreira e outros produtos com fonte de fibras vegetais, bateu a massa até formar uma pasta, peneirou tudo, obtendo uma camada fina, que deixou secando ao sol. Pronto, o jovem chinês acabava de inventar o papel. O provável ano era 105 d.C., mas a técnica teria ficado escondida por cinco séculos.

Passados quase dois mil anos da invenção de T’sai Lun, um formigueiro humano de 11 mil pessoas produzem anualmente 3,6 milhões de toneladas de celulose e papel na região de Três Lagoas. O processo produtivo, com investimentos bilionários e estatísticas superlativas, tem como base a técnica do chinês, que viveu no início da Era Cristã, com acréscimo de muita tecnologia. 

Unidades das gigantes Fibria e Eldorado instaladas em Três Lagoas fazem do local a região com a maior concentração mundial na produção de celulose. Com a recente expansão da Fibria, a estimativa é de produção de 3,37 milhões de toneladas de celulose por ano no município sul-mato-grossense, considerando os números das duas empresas.

Mar de floresta de eucalipto; no total, são 548 mil hectares (Foto: André Bittar)
Mar de floresta de eucalipto; no total, são 548 mil hectares (Foto: André Bittar)
Caminhão transportando tora de eucalipto; apenas a Eldorado usa frota de 230 veículos (Foto: André Bittar)
Caminhão transportando tora de eucalipto; apenas a Eldorado usa frota de 230 veículos (Foto: André Bittar)

Para atender essa produção, há um “mar verde” de 548 mil hectares de florestas plantadas em Três Lagoas e outros municípios de Mato Grosso do Sul. Nessa área, cabem 12.454 “Vaticanos” – o menor país do mundo, o Vaticano, tem 0,44 Km². Corresponde, ainda, a 1,5% do território sul-mato-grossense.

Também em Três Lagoas, há unidade da Internacional Paper (IP), líder global em seu segmento. A fábrica produz a média anual de 236 mil toneladas de papel para imprimir e escrever. Esse volume corresponde a 23% da produção nacional da empresa – no Brasil, a IP tem plantas em Luiz Antônio e Mogi Guaçu, municípios do interior de São Paulo.

Na Fibria, Eldorado e IP, trabalham, em Três Lagoas e região, 11,3 mil pessoas. Dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, 31 têm população abaixo desse número. Os produtos resultantes do trabalho desses milhares de funcionários são destinados ao mercado doméstico e a 47 países.

Além do papel para imprimir e escrever produzido pela IP, diversos produtos são feitos a partir da celulose fornecida pela Eldorado e Fibria. Nessa relação, há toalha, guardanapo, papel higiênico, lenço de papel, rótulo de garrafa, filtro de papel, falda descartável, papel cartão, papel para livros e cadernos, absorventes, entre outros.

Parte do processo de produção de papel na International Paper (Foto: Divulgação/IP)Parte do processo de produção de papel na International Paper (Foto: Divulgação/IP)

EXPANSÃO

Esses números serão ainda maiores nos próximos anos. No dia 23 de agosto, a Fibria iniciou as operações da sua segunda fábrica em Três Lagoas. Neste ano, serão produzidas 377 mil toneladas de celulose. Para 2018, a projeção é de 1,75 milhão de toneladas do produto e para o ano seguinte, 1,85 milhão de toneladas.

Em 2020, a unidade deve chegar à sua capacidade de 1,95 milhão de toneladas. Com isso, a produção total da Fibria, soma 3,25 milhões de toneladas de celulose.

O investimento na construção da segunda linha de Três Lagoas foi de R$ 7,345 bilhões. Na construção foi usada, de acordo com a Fibria, foram utilizados 225 mil m³ de concreto, volume suficiente para construir quase três estádios do tamanho do Maracanã.

Viveiro de mudas automatizado da Fibria (Foto: Divulgação/IP)
Viveiro de mudas automatizado da Fibria (Foto: Divulgação/IP)
São usados robôs na seleção, plantio e diagnóstico das mudas (Foto: Divulgação/IP)
São usados robôs na seleção, plantio e diagnóstico das mudas (Foto: Divulgação/IP)

TECNOLOGIA

Entre as novidades tecnológicas da Fibria, nesse momento de expansão, está o primeiro viveiro automatizado de mudas de eucalipto do mundo. São 48 mil m², com capacidade de produção de 43 milhões de mudas por ano.

No viveiro, há 24 robôs que selecionam, plantam e fazem diagnóstico das mudas. O embarque também é feito com base em inteligência artificial. “A tecnologia foi importada da Holanda, onde já é usada para o plantio automatizado de mudas de flores. Esse modelo permitirá à Fibria ter uma produtividade três vezes maior do que um viveiro tradicional”, informou a empresa.

Toras de eucalipto na Eldorado; matéria-prima é reduzida ao chamado cavaco para iniciar a produção (Foto: André Bittar)Toras de eucalipto na Eldorado; matéria-prima é reduzida ao chamado "cavaco" para iniciar a produção (Foto: André Bittar)

PROCESSO DE PRODUÇÃO

A casca de amoreira usada, há 1912 anos por T'sai Lun deu lugar, sobretudo, ao pinus e eucalipto. No caso da produção em Três Lagoas, a matéria-prima é o eucalipto. Depois de colhida, a madeira dessa árvore é descascada e transformada em tora de seis metros. Mais de duas centenas de caminhões transportam as toras às unidades de produção.

Na indústria, as toras passa pelos chamados picadores e são transformadas em “cavacos”, pequenos pedaços de madeira, segundo informa Marcel Martins, gerente de produção da unidade de Três Lagoas.

Os cavacos passam por cozimento em digestores, momento em que é a fibra de celulose é separada dos materiais inorgânicos e de um componente orgânico, chamado lignina, molécula usada na produção de energia.

Com alto poder calórico, a lignina é usada na produção de energia, o que torna autossuficiente na utilização desse insumo. São produzidas 100 MW para o processo produtivo e são gerados excedentes. Situação semelhante ocorre na Fibria, onde o excedente de energia é de 130 MW.

Do cozimento dos cavacos, resulta a pasta de celulose, que passa por reatores de branqueamentos. Depois disso, o material passa por novo processo de secagem. São usados rolos, que prensam e fazem a drenagem da celulose. O passo seguinte é o corte em forma de lâminas, empilhadas e empacotadas para o transporte.

Descrito em poucos parágrafos, o processo parece simples. Ao contrário, a produção é complexa, o que exige pesquisas constantes, com altos investimentos. O trabalho também é praticamente ininterrupto. Os profissionais são organizados em turnos, que produzem até mesmo durante a madrugada.

Morros de cavacos; do produto, será separada a celulose (Foto: André Bittar)Morros de cavacos; do produto, será separada a celulose (Foto: André Bittar)

De volta ao rio – Sem natureza não há papel. E não se trata apenas de árvores. Volume grande de água também é usado no processo produtivo. Entretanto, a água é tratada e, em parte, é devolvida ao rio, de onde é tirada.

Na IP, por exemplo, do volume de água usada no processo de produção, são devolvidos 90% à natureza, conforme informou Amaury Malia, gerente-geral da unidade em Três Lagoas. “Além disso, cerca de 80% da energia consumida é de origem renovável e produzida em nossas fábricas”.


Papel: produto milenar tem em Três Lagoas o centro produtor mundial

CRISE DE PAPEL

E a tal crise do papel? Os números de venda e consumo parecem desconhecer essa crise, ao menos da forma como é propagada. De acordo com a Secex (Secretaria do Comércio Exterior) do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), o Brasil exportou, de janeiro a setembro deste ano, 10,2 milhões de toneladas de celulose e papel.

Desse volume, 17,5% (ou 1,79 milhão de toneladas) saíram de Mato Grosso do Sul, proporcionando receita de US$ 726,86 milhões. A maior parte dessa venda foi destinada à China, terra onde tudo começou.